Eu não sabia bem como me sentir, estava sem jeito diante do que Otávio falara. Realmente nosso objetivo não podia ser outro. Minhas pernas não paravam de tremer, incontroláveis. Jurava que se continuasse a tremer daquele jeito, ergueria voo como uma pomba pronta pra buscar novas praças para se alimentar dos vários tipos de restos que humanos bobos jogavam.Minhas orelhas não paravam de coçar. "Mas eu as limpo muito bem todos os dias quando tomo banho" - pensei. Sabia muito bem o porque minhas orelhas estavam coçando, eu sabia que algo ruim estaria para acontecer aquela noite.
- Pronto, recolhi todas. - murmurou Otávio - Você quer que eu faça mais pipoca?
- Ah! Não precisa! Eu nem estava comendo muito mesmo. - Disse com a voz vacilando. Já não estava mais vermelho de vergonha. Estava vermelho por segurar o choro, por segurar as lágrimas que insistiam em empurrar minhas pupilas tão bravamente como um guerreiro espartano.
- Você entende né Leandro? Me desculpa... Mesmo, sabe. Eu não consigo. Ainda "amo" Fábio.
Sabe quando estamos sonhando estar voando? E subitamente começamos a cair loucamente para um grande vazio, e esse vazio começa a tomar formas com pequenas manchas que vão crescendo até se tornarem algo perceptível aos olhos. E quando finalmente pensamos: "Mamãe, foi bom ter nascido por cesária, mas agora chegou a hora de ir encontrar o vovô Ferdinando." Acordamos com um impulso tão forte que parecia uma queda real? Sim, exatamente como me senti depois ouvir aquele "amo" tão verdadeiro saindo da boca daquele rapaz, que, por alguns momentos, pensei que estava apaixonado por mim.
- Eh... Eu sei... Me desculpe. - sibilei.
- Não precisa se desculpar, afinal de contas, você também é vítima em toda essa história.
- Vamos voltar ao filme?
Click.
Já não me importava mais com qualquer coisa que pudesse desviar minha atenção. Passei todo o restante do filme olhando para meus pés, sem as meias, que havia tirado para secar. O tempo parecia não passar. Como sempre, eu não consegui conquistar alguém. Foi assim desde que eu me entendo por gente. Acho que as únicas pessoas que eu conquistei foram meus próprios pais. Tenho 16 anos e não conseguira fazer nada que agradasse alguém a ponto dela gostar de mim. Tenho certeza, tenho um "défict de extroversão". Tudo bem que sempre é mais difícil quando você é homossexual e não tem muitas opções em seu ciclo social, ainda mais quando se está dentro do armário, completamente enfurnado, desesperado para abrir suas asinhas coloridas de anjinho - ou de galinha, depende do ponto de vista - para dizer ao mundo inteiro que você é uma pessoa que a maioria das pessoas não esperassem, ou não quisessem que fosse.
Quando finalmente desci na estação da realidade, me dei conta que letrinhas passavam lentamente sobre a tela da Sony TUBO de 29 polegadas e uma melodia triste se propagava por todo o quarto coberto de molduras de design moderno, cujo seu interior haviam fotos daquele modelo alto, de pernas eram finas comparadas aos ombros largos, a pele branca como um canson cheio de tesão para ser desenhado, sem nenhuma espinha, apenas algumas sardas e os cabelos cacheados e muito bem cuidados complementavam a beleza daqueles olhos azuis esverdeados, que olhavam tão apavorantemente para as duas sombras que estavam sentadas agora em sua cama, assistindo seu filme preferido na sua TV e comendo pipoca feita com o seu gás e tomando Coca-cola em seus copos.
Apenas depois que vi a expressão que parecia a de algum maníaco do parque, eu havia percebido a encrenca que me metí. Naquela hora, pensei: "A manchete do jornal de segunda-feira anunciará a morte por espancamento de três loucos varridos: Triângulo amoroso se mata durante fim de cine-pipoca".
- Mas o que acontece aqui? - disse Fábio, até calmo, pelo que imaginava. Porém uma nuvem de ódio pairava sobre seus cabelos louro natural.
- Me diz você, Fábio. - retrucou Otávio - Um ano de namoro e você não muda!
- É! - a única coisa que consegui dizer.
- Por que você teve de envolver "ele" em uma briga nossa?! - Fábio se indignou.
- Por que você teve de se envolver com ele?! Por que me traiu?! - Otávio continuou.
- Eu não te traí!
- Então me explica o porque você estava com ele, de beijinhos e amassos no cinema no aniversário do nosso namoro!
- Não tem nada haver com você Otávio! Estávamos brigados!
Me perguntei se eles sabiam que eu estava sentado lá, ouvindo toda a conversa, de pernas cruzadas, tremendo e quase chorando, mais vermelho que o próprio vermelho.
- Então é isso que você faz quando briga com alguém?
- O que você pretende com todo esse show, Otávio?
- Arrancar a verdade de você!
- Mas se você já sabe de toda a verdade, porque insiste em ser ridículo e paranóico?
- Não comece! Você sabe muito bem o porque... - Otávio estava começando a tremer também.
- Tudo bem, eu admito! Eu tive um caso com o Leandro!
Peraí!
Um "caso"? Então realmente, ele estava me usando apenas para alguns momentos de prazer?
Agora mesmo eu não consegui conter as lágrimas e escondi o rosto atrás dos braços, que não conseguiam cumprir bem sua tarefa, porque tremiam, tremulavam como todo o resto do corpo. Faltava pouco para alçar voo.
- Então você admite! - Olavo estava levantando da cama.
- Agora, o que irá mudar em sua vida? Você sempre foi um paranóico, um louco!
- Eu queria ouvir da sua boca.
- Para?
- Saber se eu iria querer continuar a te amar.
- Se liga, você invade minha casa, envolve pessoas que nem fazem parte da nossa história! Você é um louco! UM LOU...
Pronto.
Agora mesmo eu levantei voo de tanto minhas pernas balançarem. Neste instante eu dei um pulo e levantei instantaneamente com um impulso e me joguei para o lado, batendo as costelas na quina da cama e caindo de maduro no carpete após desviar de Otávio que se esgueirava para acertar um soco em cheio na pele lisa do modelo. Fábio avançou bruscamente para apertar suas mãos contra o pescoço de Otávio, que deu um chute em sua barriga e o fez cambalear até aterrizar em uma área macia, em mim. Eu gemi de dor mais ainda e tentei me arrastar para a porta enquanto as tigresas atrás de mim continuavam a se arranhar em uma luta tão inútil quanto minha tia Silvia de dieta.
Finalmente Otávio tropeçou em mim e caiu de cabeça dando duas cambalhotas, queimando o rosto no carpete.
Houve um silêncio.
- Eu te machuquei?! Ai não! - Gemeu Fábio, pulando por cima de mim e indo acolher o amado em seus braços.
Foi a gota d'água. Me levantei, com um ódio ardente nos olhos. Enquanto a mim? Fui agredido em uma briga que nem era minha, e aqueles dois ficam de cena, excluindo completamente minha existência daquela casa velha em reformas. Eu estava sobrando, literalmente. Me dirigi até a porta, - que não estava lá, por culpa da parede arrebentada que pretendia transformar o velho quarto em uma futura cozinha, só faltava os canos - peguei minhas meias, cruzei a sala verde até o sofá vermelho esburacado, sentei e as vesti, depois calcei o par de tênis e levei minhas mãos a cabeça. Por que eu estava lá? Parecia um idiota. Fui enganado por um modelo, conquistado por seu namorado e levado alguns hematomas pelo corpo depois de apanhar apenas por estar sentado na cama onde os dois supostamente iriam fazer sexo aquela noite. Levantei a camiseta listrada, mas o hematoma das minhas costelas não estava lá, mas não importava agora. O que mais queria agora era nunca ter saído de casa em um plano fajuto criado por um paranóico.
Peguei minhas coisas e saí pela porta da sala:
- Vocês se merecem, sejam muito felizes! - berrei.
Ninguém iria abrir o portão para mim, estavam muito ocupados, verificando arranhões no corpo do outro, "brincando de médico", eu imaginei. Não precisava, eu sabia muito bem como pular portões. Cruzei o corredor e quase caí por tropeçar em um saco se cimento que estava jogado. Eu o chutei, comecei a me desmanchar em lágrimas na mesma hora. Mas agora não era hora. Me dirigi até o portão, escalei aquelas grades alaranjadas de ferro enferrujado. Passei para o outro lado. Quando estava prestes a dar um pulo de costas, meu pé direito, com o qual chutara o saco, ficou dormente. Pensei em tudo, em toda a minha vida. Passou como um filme. Claro, com vários cortes, porque não havia tempo para um Director's Cut. E simples assim. Deslizei a cambalhotas ladeira abaixo.
A única coisa que consigo me lembrar, era dos respingos do meu sangue que deveriam ter saído por algum orifício do meu rosto mancharem a calçada, e de uma pequena forma, menor que a palma da minha mão, sair desesperada para a direção de várias outras formas sibilantes e agitadas, guinchando algo impossível de compreender. Mas quando foquei minha visão, vi apenas um canteiro de flores e sem muitas cerimonias, minha visão ficou escura.

Tadinhooo do protagonistaa ><
ResponderExcluire esses dois pombinhos de despacho ai são uns trouxas bipolares u.u
Luh, como voce é mauzinho... tadinho do moço.
ResponderExcluirTo torcendo por ele... simpatizei.