Era noite, um ar bem húmido como eu consigo lembrar. As luzes da cidade deixava o céu nublado de aspecto marrom, impossível de ver a linda luz azul pulsando das estrelas lá em cima. Acabara de garoar, o asfalto e todas as construções de concreto, rachadas e danificadas, das antigas casas e prédios estavam molhadas, junto com a grama mal aparada dos canteiros ao redor da rodovia que acabava em um curto viaduto que possibilitava o grande transito de São Bernardo do Campo cruzar a Paulicéia e entrar no Rudge Ramos. Passando por baixo do viaduto, duas pessoas segurando sacolas do hipermercado que beira a rodovia, conversavam seriamente. Um rapaz de cabelos curtos negros e encaracolados, era o mais alto - me lembro bem de quando medí nossas alturas, apenas uma desculpa de chegar perto de seus olhos negros e muito bem desenhados - e o menor, eu, de cabelo bagunçado, volumoso, segurando as sacolas das compras depois de tanto insistir que deveria fazer todo o trabalho porque Otávio havia pago tudo.Em baixo do viaduto era frio e escuro, cheirava mal e eu não parava de pisar em poças d'água. Fiquei vermelho depois de ensopar minhas meias.
- Não tem problema, na casa do Fábio você tira para assistir o filme. - disse Otávio, com um sorriso simpático, enquanto estávamos atravessando a avenida e começando a subir a colina na direção do nosso destino.
Retribuí o sorriso e continuei em passos longos, entramos em uma rua íngreme e marchamos com esforço para o portão, - já estávamos cansados da caminhada - velho e enferrujado. Ele abriu com as chaves. Neste momento, minha barriga doeu como se tivesse almoçado ovos fritos com repolho. Era ciúmes: Ele tinha as chaves da casa "dele"! Claro, ele morou lá, mas...
Passamos por um corredor cheio de tralhas e materiais de construção e chegamos a uma porta acabada.
Ele abriu e eu entrei, liguei as luzes.
Uma casa em reforma, com paredes verdes, poucos móveis na sala, mas vários CDs de música e um computador ao canto de uma parede decorada com tijolos. Do lado oposto, um corredor no qual dava para a cozinha. Me dirigi para lá e coloquei as sacolas de compras, no qual tirei uma garrafa de Coca-cola e um saco de milho.
- Deixa que eu faço. - disse ele.
- Ah, quer ajuda?
- Sim, venha cá, jogue esta manteiga aí dentro.
- Está bem.
Quando a pipoca estava pronta, um cheiro de manteiga com alho e salsa inundou toda a casa.
- Poxa, vejo que você cozinha muito bem. - Falei sem jeito.
- Fazer pipoca não significa cozinhar bem. E você me ajudou... Quer Coca-cola?
- Vamos levar para o quarto, assim não vamos precisar voltar aqui no meio do filme.
- Deixa que eu levo.
- Eu ajudo...
- Não não precisa - disse ele querendo ser útil - eu levo tudo... Vá colocando o DVD.
Atravessei o corredor, a sala, e entrei no quarto. Paredes brancas com alguns quadros de um modelo louro e alto, sua pele era lisa, sem nenhuma espinha ou rugas, me perguntei se foi usado Photoshop. De um lado, uma estante com vários equipamentos de som e um Televisor. Do outro, uma cama com um cobertor xadrez.
Me apressei, coloquei o DVD, puxei um banco para a garrafa de Coca-cola e os dois copos. Fechei a janela e ele ligou os aparelhos de som.
Deitamos na cama.
Ele com os pés virados para o travesseiro e eu com os pés do lado oposto, encolhido. Não estávamos encostados um no outro, e a vergonha me fez ficar de um mau jeito na cama apenas para dar todo o conforto para Otávio.
Passamos quase metade do filme calados, comendo pipoca. Meu copo havia se esvaziado e logo que o deixei em cima do banco, Otávio logo se inclinou e pegou a Coca:
- Quer mais?
Eu corei como se minhas bochechas tivessem sido pintadas com tinta guache cor magenta, com duas mãos ainda por cima.
- Não, tudo bem, eu pego. - Disse, me apressando para chegar ao copo.
Mas nossas mãos se tocaram.
Eu fiquei completamente vermelho.
Ele também.
Me ajudou a colocar o refrigerante em meu copo e logo voltamos para o filme, com a tigela de pipoca em nosso meio.
Parecia um filme romântico, pois todas as vezes que ia pegar uma pipoca a mão dele estava lá, de encontro com a minha. Acho que na verdade, eu sempre encostava minha mao na dele, porque eu "queria" sentir sua pele, engordurada da pipoca e com sal, mas macia, perfeita. E sua mão estava lá, parada, apoiada sobre as pipocas amareladas da manteiga.
Eu tinha que fazer aquilo, eu não prestava mais atenção no filme, mas sim na mão do Otávio, aquela mão que já segurou na minha a uma semana atrás, aquela em que eu senti o calor e o conforto. Aquelas que já haviam me envolvido em um abraço.
E eu fiz!
Segurei sua mão. Ele, com aquele olhar penetrante, me olhou, meio sem jeito, mas retribuiu, acariciando a minha. Mas outra veio de encontro. De encontro ao me rosto, que se aproximava cada vez mais e mais de Otávio. Ele fechou os olhos.
Otávio me beijou.
Quando ele fez isso, comecei a tremer. Minhas pernas tremiam incontrolávelmente, meu braço tremia indiscutivelmente. Foi quando minha perna direita começou a doer, pelo mau jeito. E eu tentei me mecher, quando eu estava passando a perna para o outro lado. Me puxou e se fez deitar paralelamente a mim.
Estávamos lá, deitados e nos beijando, quando minha cabeça bateu na tijela de pipoca e vi vários pontos amarelados voarem em camera lenta, pipocas aviadoras fugindo de uma grande explosão, se espalhando por todos os lados.
- Droga! Deixa que eu limpo! - disse Otávio, nervoso.
- Ah... Eu ajudo!
- Raios! Por onde andava a minha cabeça? Eu não posso fazer isso... Isso não foi traição né? Um beijinho bobo não foi traição né... Nossa, voou pipoca para todos os lados! Leandro, nosso objetivo aqui é jogá-lo contra a parede! Me desculpa, eu sou um idiota!
Eu estava lá, com cara de tacho, sem palavras.

Aah ! adoreiii !!
ResponderExcluirAdoro essas historias de romance /comédia/live action ( ? )
Luh!!! Gostei. Vamos ler o prox agora.
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