Tudo bem. Eu tinha de admitir: Ridículo estar naquela situação. Eu podia ter entrado naquela briga, ter sido valente e me defendido. Porém, não aconteceu assim. Eu fugi... caí... sangrei... Tinha certeza, a manchete do jornal de amanhã não seria sobre a morte de três rapazes num triângulo amoroso. Seria: "O trouxa que morreu dando cambalhotas na calçada". E agora? O que minha mãe iria pensar? O que TODOS iriam pensar? Mas havia algo que me intrigava...Eu estava inconsciente.
E minha mente estava longe, acho que em algum jardim com tantas flores que eu nem mesmo ouvi falar na vida. Era um imenso campo florido, colorido, exalando todos os tipos de aroma que eu sentia prazer só de pensar. Todos mesmo! Me virei, senti o mousse de maracujá, depois andei um pouco e estava sentindo pão de queijo, mais para frente o chocolate havia entrado em minhas narinas. "Adorei essas flores!" - pensei. Foi quando tropecei em algo que se prendeu em meus sapatos e caí de cara no meio das flores.
- Denovo! Merda! - gritei.
- Malditos sejam esses gigantes! Acabou com minha horta!
Meus olhos se arregalaram, senti um gelo na minha barriga. Não pude deixar de soltar um gritinho. Estava olhando para uma pequena forma, do tamanho da palma da minha mão, tinha pétalas de gradiente branco e rosa em seu pequeno receptáculo, de onde emergiam olhos afilados cor de pêssego e uma boca pequena, as sépalas reluziam com a luz do sol. Folhas verde-escuro penduradas em seu pedúnculo que segurava longas asas cintilantes, no qual batiam com tanta leveza que me hipnotizavam.
- U... Umm... Uma flor?! - gaguejei.
- Uma fada, claro, onde já se viu? Gigante estúpido! - ela vociferou como se fosse a coisa mais normal do mundo - E o que você faz aqui?
- Eu preciso passar em um psicólogo logo... acho que amanhã mesmo vou marcar. - já marchava de volta. Não acreditava no que vi. - Até parece que uma flor conversou comigo...
- A flor das flores! Você quer dizer! Não sou exatamente uma flor. Sou uma fada, Carmem, a rainha das Camélias!
- Camélia é uma flor!
- Mas não sou uma, não mais. Virei uma fada cinco luas atrás.
- Então toda fada é uma rainha?
- Garoto esperto! Está pegando o jeito.
Fechei os olhos. Porque eu estava conversando com uma flor? Fada... Não importa. Meu senso se realidade pifou ou coisa assim. Trocamos algumas palavras e já estávamos nesse nível de intimidade? Aliás, porque mesmo eu estaria dialogando com algo que eu não compreendia?
- Er... Preciso ir... - disse abrindo os olhos com as esperanças de não encontrar nenhuma flor falante. Mas com certeza, eu estava com azar.
- E então? Por que veio até a mim? - Carmem insistiu.
- Não sei, okay? Eu apenas estou aqui.
- Você quer algo de mim, se não, nunca teria aparecido por aqui. Quer que eu conserte esse braço quebrado? E esse corte na sua testa...
Quando aquela flor maluca disse aquilo, desabei sobre meus joelhos. Meu braço esquerdo estava torcido em uma posição muito feia de olhar, parecia que estava coçando minha bunda ou algo parecido. Soltei vários palavrões, cada um mais vulgar que o outro, sobre onde eu deveria enfiar as coisas.
- Então é isso, trabalho fácil! - disse Camélia com um sorriso em seu receptáculo.
- Mas... mas... então, isso tudo é real? Mas como... Eu não sinto nada. - dava para notar minha cara de interrogação.
- Claro que não sentiu. São os aromas.
- Que aromas?
- Aqui, você só sente oque quer. Tudo que te dá prazer... Mas se quiser sentir dor também, vá em frente.
Realmente não entendia nada. Como uma flor... fada... pode consertar meu braço? Eu imaginava fadinhas como a Sininho do Peter Pan, ou uma velha gorda com asas e uma varinha... Mas não uma... Camélia.
- Vou começar, fique parado gigante estúpido. - Carmem estendeu as sépalas e elas começaram a brilhar mais ainda. Depois num rodopio aéreo, Carmem balançou suas pétalas rosadas como se estivesse dançando uma musica. Que de fato, era uma música: Um coro suave, uma canção que me fez sentir leve como uma pluma. Quando olhei para baixo, vi milhares de olhos surgirem. Cada par de olhos cerrados surgindo em seus receptáculos multi-verdes. O coral foi se completando com cada flor que começava a cantar, e uma explosão de pétalas coloridas subiu. A coisa mais linda que já vi em vida. As flores dançavam suavemente no ar, me trazendo a melhor sensação, o melhor sorriso que pude dar naquele momento. Percebi que meu braço não estava mais coçando meu traseiro. Eu estava novo em folha, claro, com algumas manchas e sangue. Mas não importava mais.
De repente, os maravilhosos aromas se transformaram em um cheiro azedo, como uma pessoa que foi morar no lixão e não tomou banho por pelo menos duas semanas. Um cheiro que me enojara. Minha mente escureceu e me vi deitado na calçada respingada se sangue, em frente á um canteiro de flores. Pude reconhecer algumas Camélias reunidas num canto. Aquele céu céu nublado de uma mistura de cinza e marrom estava escondido por um rosto imundo que me olhava assustado. De fato, o cheiro ruim vinha dele.
- Você está bem garoto? - perguntou o mendigo.
- Sim, sim, obrigado por se importar. - levantei num pulo. Meus cabelos estavam parecendo um amontoado de pelos de um Shih Tzu que acabara de rolar na grama. Olhei ao redor. Estava na beira do viaduto. Olhei adiante, colina acima, e calculei o quanto havia rolado. Talvez uns cinquenta metros. Estava meio atordoado. Pensei um pouco. Claro, sonhei com aquelas flores, só podia, não é? "Volte para a realidade, Leandro!" - pensei.
Apesar de tudo pelo que passei na casa do Fábio, eu estava me sentindo bem. Foi o que me deixou confuso: Acabei de rolar ladeira abaixo, tinha sangue nas minhas roupas e eu estava com um sorriso bobo estampado na cara, com uma sensação de leveza e nenhum machucado. Mas deixei de lado, foi um sonho. Presumi que o sangue saiu do meu nariz ou de qualquer outro orifício e subi a ladeira em direção ao ponto de ônibus. Pensando na desculpa que iria dar para minha mãe quando chegasse em casa e ela encontrasse seu filho querido manchado de vermelho. Ela não sabe sobre mim, que sou homossexual. Se chegar em casa e simplismente dizer que estava no meio de uma briga de namorados e apenas levei um tombinho inocente de cinquenta metros, nem sei aconteceria.
Meus olhos passaram pelo portão da casa do Fábio. Imaginava que ele estivesse fazendo o kama-sutra com Otávio já. Mas surpriendentemente, ele estava parado, com aqueles olhos azuis esverdeados, olhando para mim.
- Você está bem? - Fábio teve a coragem de chegar em mim? Eu não acreditei.
- O que você acha?
- Você está sangrando...
- Jura?! - foi nesse momento que decidi ser aquilo que não fui enquanto as tigresas brigavam entre sí: valente. - Se não fosse por SUA pilantragem, eu não teria rolado ladeira abaixo! Você é um cretino! Ainda tem a coragem de vir aqui fora e me olhar nos olhos? Vá para o inferno! Seja feliz com o Otávio! Vocês se merecem!
- Mas eu não tenho culpa se você foi atraído pela minha beleza... - disse Fábio, com um tom dramático em sua voz. Não pude acreditar, apenas continuei subindo a ladeira em direção ao ponto de ônibus.
- Não seja ridículo, adeus. - Disse com todo o orgulho que reuni.
Estava disposto a esquecer tudo e voltar para minha vida tranquila. Mas não tinha noção de como tudo iria virar de ponta cabeça. Eu não imaginava o quanto as coisas não fariam mais sentido daquele momento adiante. Juro que não queria ter ouvido aquilo. Talvez se eu não tivesse ouvido oque estava prestes a ouvir, as coisas voltariam ao normal. Mas não foi assim. Bem baixinho, achando que eu não iria escutar, Fábio disse:
- Obrigado, Carmem.


