sábado, 31 de outubro de 2009

Capítulo 3 - Aromas e Camélias.

Tudo bem. Eu tinha de admitir: Ridículo estar naquela situação. Eu podia ter entrado naquela briga, ter sido valente e me defendido. Porém, não aconteceu assim. Eu fugi... caí... sangrei... Tinha certeza, a manchete do jornal de amanhã não seria sobre a morte de três rapazes num triângulo amoroso. Seria: "O trouxa que morreu dando cambalhotas na calçada". E agora? O que minha mãe iria pensar? O que TODOS iriam pensar? Mas havia algo que me intrigava...
Eu estava inconsciente.
E minha mente estava longe, acho que em algum jardim com tantas flores que eu nem mesmo ouvi falar na vida. Era um imenso campo florido, colorido, exalando todos os tipos de aroma que eu sentia prazer só de pensar. Todos mesmo! Me virei, senti o mousse de maracujá, depois andei um pouco e estava sentindo pão de queijo, mais para frente o chocolate havia entrado em minhas narinas. "Adorei essas flores!" - pensei. Foi quando tropecei em algo que se prendeu em meus sapatos e caí de cara no meio das flores.
- Denovo! Merda! - gritei.
- Malditos sejam esses gigantes! Acabou com minha horta!
Meus olhos se arregalaram, senti um gelo na minha barriga. Não pude deixar de soltar um gritinho. Estava olhando para uma pequena forma, do tamanho da palma da minha mão, tinha pétalas de gradiente branco e rosa em seu pequeno receptáculo, de onde emergiam olhos afilados cor de pêssego e uma boca pequena, as sépalas reluziam com a luz do sol. Folhas verde-escuro penduradas em seu pedúnculo que segurava longas asas cintilantes, no qual batiam com tanta leveza que me hipnotizavam.
- U... Umm... Uma flor?! - gaguejei.
- Uma fada, claro, onde já se viu? Gigante estúpido! - ela vociferou como se fosse a coisa mais normal do mundo - E o que você faz aqui?
- Eu preciso passar em um psicólogo logo... acho que amanhã mesmo vou marcar. - já marchava de volta. Não acreditava no que vi. - Até parece que uma flor conversou comigo...
- A flor das flores! Você quer dizer! Não sou exatamente uma flor. Sou uma fada, Carmem, a rainha das Camélias!
- Camélia é uma flor!
- Mas não sou uma, não mais. Virei uma fada cinco luas atrás.
- Então toda fada é uma rainha?
- Garoto esperto! Está pegando o jeito.

Fechei os olhos. Porque eu estava conversando com uma flor? Fada... Não importa. Meu senso se realidade pifou ou coisa assim. Trocamos algumas palavras e já estávamos nesse nível de intimidade? Aliás, porque mesmo eu estaria dialogando com algo que eu não compreendia?

- Er... Preciso ir... - disse abrindo os olhos com as esperanças de não encontrar nenhuma flor falante. Mas com certeza, eu estava com azar.

- E então? Por que veio até a mim? - Carmem insistiu.
- Não sei, okay? Eu apenas estou aqui.
- Você quer algo de mim, se não, nunca teria aparecido por aqui. Quer que eu conserte esse braço quebrado? E esse corte na sua testa...
Quando aquela flor maluca disse aquilo, desabei sobre meus joelhos. Meu braço esquerdo estava torcido em uma posição muito feia de olhar, parecia que estava coçando minha bunda ou algo parecido. Soltei vários palavrões, cada um mais vulgar que o outro, sobre onde eu deveria enfiar as coisas.
- Então é isso, trabalho fácil! - disse Camélia com um sorriso em seu receptáculo.
- Mas... mas... então, isso tudo é real? Mas como... Eu não sinto nada. - dava para notar minha cara de interrogação.
- Claro que não sentiu. São os aromas.
- Que aromas?
- Aqui, você só sente oque quer. Tudo que te dá prazer... Mas se quiser sentir dor também, vá em frente.

Realmente não entendia nada. Como uma flor... fada... pode consertar meu braço? Eu imaginava fadinhas como a Sininho do Peter Pan, ou uma velha gorda com asas e uma varinha... Mas não uma... Camélia.
- Vou começar, fique parado gigante estúpido. - Carmem estendeu as sépalas e elas começaram a brilhar mais ainda. Depois num rodopio aéreo, Carmem balançou suas pétalas rosadas como se estivesse dançando uma musica. Que de fato, era uma música: Um coro suave, uma canção que me fez sentir leve como uma pluma. Quando olhei para baixo, vi milhares de olhos surgirem. Cada par de olhos cerrados surgindo em seus receptáculos multi-verdes. O coral foi se completando com cada flor que começava a cantar, e uma explosão de pétalas coloridas subiu. A coisa mais linda que já vi em vida. As flores dançavam suavemente no ar, me trazendo a melhor sensação, o melhor sorriso que pude dar naquele momento. Percebi que meu braço não estava mais coçando meu traseiro. Eu estava novo em folha, claro, com algumas manchas e sangue. Mas não importava mais.

De repente, os maravilhosos aromas se transformaram em um cheiro azedo, como uma pessoa que foi morar no lixão e não tomou banho por pelo menos duas semanas. Um cheiro que me enojara. Minha mente escureceu e me vi deitado na calçada respingada se sangue, em frente á um canteiro de flores. Pude reconhecer algumas Camélias reunidas num canto. Aquele céu céu nublado de uma mistura de cinza e marrom estava escondido por um rosto imundo que me olhava assustado. De fato, o cheiro ruim vinha dele.
- Você está bem garoto? - perguntou o mendigo.
- Sim, sim, obrigado por se importar. - levantei num pulo. Meus cabelos estavam parecendo um amontoado de pelos de um Shih Tzu que acabara de rolar na grama. Olhei ao redor. Estava na beira do viaduto. Olhei adiante, colina acima, e calculei o quanto havia rolado. Talvez uns cinquenta metros. Estava meio atordoado. Pensei um pouco. Claro, sonhei com aquelas flores, só podia, não é? "Volte para a realidade, Leandro!" - pensei.

Apesar de tudo pelo que passei na casa do Fábio, eu estava me sentindo bem. Foi o que me deixou confuso: Acabei de rolar ladeira abaixo, tinha sangue nas minhas roupas e eu estava com um sorriso bobo estampado na cara, com uma sensação de leveza e nenhum machucado. Mas deixei de lado, foi um sonho. Presumi que o sangue saiu do meu nariz ou de qualquer outro orifício e subi a ladeira em direção ao ponto de ônibus. Pensando na desculpa que iria dar para minha mãe quando chegasse em casa e ela encontrasse seu filho querido manchado de vermelho. Ela não sabe sobre mim, que sou homossexual. Se chegar em casa e simplismente dizer que estava no meio de uma briga de namorados e apenas levei um tombinho inocente de cinquenta metros, nem sei aconteceria.
Meus olhos passaram pelo portão da casa do Fábio. Imaginava que ele estivesse fazendo o kama-sutra com Otávio já. Mas surpriendentemente, ele estava parado, com aqueles olhos azuis esverdeados, olhando para mim.
- Você está bem? - Fábio teve a coragem de chegar em mim? Eu não acreditei.
- O que você acha?
- Você está sangrando...
- Jura?! - foi nesse momento que decidi ser aquilo que não fui enquanto as tigresas brigavam entre : valente. - Se não fosse por SUA pilantragem, eu não teria rolado ladeira abaixo! Você é um cretino! Ainda tem a coragem de vir aqui fora e me olhar nos olhos? Vá para o inferno! Seja feliz com o Otávio! Vocês se merecem!
- Mas eu não tenho culpa se você foi atraído pela minha beleza... - disse Fábio, com um tom dramático em sua voz. Não pude acreditar, apenas continuei subindo a ladeira em direção ao ponto de ônibus.
- Não seja ridículo, adeus. - Disse com todo o orgulho que reuni.

Estava disposto a esquecer tudo e voltar para minha vida tranquila. Mas não tinha noção de como tudo iria virar de ponta cabeça. Eu não imaginava o quanto as coisas não fariam mais sentido daquele momento adiante. Juro que não queria ter ouvido aquilo. Talvez se eu não tivesse ouvido oque estava prestes a ouvir, as coisas voltariam ao normal. Mas não foi assim. Bem baixinho, achando que eu não iria escutar, Fábio disse:

- Obrigado, Carmem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Capítulo 2 - Tigresas e flores.

Eu não sabia bem como me sentir, estava sem jeito diante do que Otávio falara. Realmente nosso objetivo não podia ser outro. Minhas pernas não paravam de tremer, incontroláveis. Jurava que se continuasse a tremer daquele jeito, ergueria voo como uma pomba pronta pra buscar novas praças para se alimentar dos vários tipos de restos que humanos bobos jogavam.
Minhas orelhas não paravam de coçar. "Mas eu as limpo muito bem todos os dias quando tomo banho" - pensei. Sabia muito bem o porque minhas orelhas estavam coçando, eu sabia que algo ruim estaria para acontecer aquela noite.
- Pronto, recolhi todas. - murmurou Otávio - Você quer que eu faça mais pipoca?
- Ah! Não precisa! Eu nem estava comendo muito mesmo. - Disse com a voz vacilando. Já não estava mais vermelho de vergonha. Estava vermelho por segurar o choro, por segurar as lágrimas que insistiam em empurrar minhas pupilas tão bravamente como um guerreiro espartano.
- Você entende Leandro? Me desculpa... Mesmo, sabe. Eu não consigo. Ainda "amo" Fábio.
Sabe quando estamos sonhando estar voando? E subitamente começamos a cair loucamente para um grande vazio, e esse vazio começa a tomar formas com pequenas manchas que vão crescendo até se tornarem algo perceptível aos olhos. E quando finalmente pensamos: "Mamãe, foi bom ter nascido por cesária, mas agora chegou a hora de ir encontrar o vovô Ferdinando." Acordamos com um impulso tão forte que parecia uma queda real? Sim, exatamente como me senti depois ouvir aquele "amo" tão verdadeiro saindo da boca daquele rapaz, que, por alguns momentos, pensei que estava apaixonado por mim.
- Eh... Eu sei... Me desculpe. - sibilei.
- Não precisa se desculpar, afinal de contas, você também é vítima em toda essa história.
- Vamos voltar ao filme?
Click.

Já não me importava mais com qualquer coisa que pudesse desviar minha atenção. Passei todo o restante do filme olhando para meus pés, sem as meias, que havia tirado para secar. O tempo parecia não passar. Como sempre, eu não consegui conquistar alguém. Foi assim desde que eu me entendo por gente. Acho que as únicas pessoas que eu conquistei foram meus próprios pais. Tenho 16 anos e não conseguira fazer nada que agradasse alguém a ponto dela gostar de mim. Tenho certeza, tenho um "défict de extroversão". Tudo bem que sempre é mais difícil quando você é homossexual e não tem muitas opções em seu ciclo social, ainda mais quando se está dentro do armário, completamente enfurnado, desesperado para abrir suas asinhas coloridas de anjinho - ou de galinha, depende do ponto de vista - para dizer ao mundo inteiro que você é uma pessoa que a maioria das pessoas não esperassem, ou não quisessem que fosse.

Quando finalmente desci na estação da realidade, me dei conta que letrinhas passavam lentamente sobre a tela da Sony TUBO de 29 polegadas e uma melodia triste se propagava por todo o quarto coberto de molduras de design moderno, cujo seu interior haviam fotos daquele modelo alto, de pernas eram finas comparadas aos ombros largos, a pele branca como um canson cheio de tesão para ser desenhado, sem nenhuma espinha, apenas algumas sardas e os cabelos cacheados e muito bem cuidados complementavam a beleza daqueles olhos azuis esverdeados, que olhavam tão apavorantemente para as duas sombras que estavam sentadas agora em sua cama, assistindo seu filme preferido na sua TV e comendo pipoca feita com o seu gás e tomando Coca-cola em seus copos.
Apenas depois que vi a expressão que parecia a de algum maníaco do parque, eu havia percebido a encrenca que me metí. Naquela hora, pensei: "A manchete do jornal de segunda-feira anunciará a morte por espancamento de três loucos varridos: Triângulo amoroso se mata durante fim de cine-pipoca".
- Mas o que acontece aqui? - disse Fábio, até calmo, pelo que imaginava. Porém uma nuvem de ódio pairava sobre seus cabelos louro natural.
- Me diz você, Fábio. - retrucou Otávio - Um ano de namoro e você não muda!
- É! - a única coisa que consegui dizer.
- Por que você teve de envolver "ele" em uma briga nossa?! - Fábio se indignou.
- Por que você teve de se envolver com ele?! Por que me traiu?! - Otávio continuou.
- Eu não te traí!
- Então me explica o porque você estava com ele, de beijinhos e amassos no cinema no aniversário do nosso namoro!
- Não tem nada haver com você Otávio! Estávamos brigados!
Me perguntei se eles sabiam que eu estava sentado lá, ouvindo toda a conversa, de pernas cruzadas, tremendo e quase chorando, mais vermelho que o próprio vermelho.
- Então é isso que você faz quando briga com alguém?
- O que você pretende com todo esse show, Otávio?
- Arrancar a verdade de você!
- Mas se você já sabe de toda a verdade, porque insiste em ser ridículo e paranóico?
- Não comece! Você sabe muito bem o porque... - Otávio estava começando a tremer também.
- Tudo bem, eu admito! Eu tive um caso com o Leandro!

Peraí!
Um "caso"? Então realmente, ele estava me usando apenas para alguns momentos de prazer?
Agora mesmo eu não consegui conter as lágrimas e escondi o rosto atrás dos braços, que não conseguiam cumprir bem sua tarefa, porque tremiam, tremulavam como todo o resto do corpo. Faltava pouco para alçar voo.

- Então você admite! - Olavo estava levantando da cama.
- Agora, o que irá mudar em sua vida? Você sempre foi um paranóico, um louco!
- Eu queria ouvir da sua boca.
- Para?
- Saber se eu iria querer continuar a te amar.
- Se liga, você invade minha casa, envolve pessoas que nem fazem parte da nossa história! Você é um louco! UM LOU...
Pronto.
Agora mesmo eu levantei voo de tanto minhas pernas balançarem. Neste instante eu dei um pulo e levantei instantaneamente com um impulso e me joguei para o lado, batendo as costelas na quina da cama e caindo de maduro no carpete após desviar de Otávio que se esgueirava para acertar um soco em cheio na pele lisa do modelo. Fábio avançou bruscamente para apertar suas mãos contra o pescoço de Otávio, que deu um chute em sua barriga e o fez cambalear até aterrizar em uma área macia, em mim. Eu gemi de dor mais ainda e tentei me arrastar para a porta enquanto as tigresas atrás de mim continuavam a se arranhar em uma luta tão inútil quanto minha tia Silvia de dieta.
Finalmente Otávio tropeçou em mim e caiu de cabeça dando duas cambalhotas, queimando o rosto no carpete.
Houve um silêncio.
- Eu te machuquei?! Ai não! - Gemeu Fábio, pulando por cima de mim e indo acolher o amado em seus braços.

Foi a gota d'água. Me levantei, com um ódio ardente nos olhos. Enquanto a mim? Fui agredido em uma briga que nem era minha, e aqueles dois ficam de cena, excluindo completamente minha existência daquela casa velha em reformas. Eu estava sobrando, literalmente. Me dirigi até a porta, - que não estava lá, por culpa da parede arrebentada que pretendia transformar o velho quarto em uma futura cozinha, só faltava os canos - peguei minhas meias, cruzei a sala verde até o sofá vermelho esburacado, sentei e as vesti, depois calcei o par de tênis e levei minhas mãos a cabeça. Por que eu estava lá? Parecia um idiota. Fui enganado por um modelo, conquistado por seu namorado e levado alguns hematomas pelo corpo depois de apanhar apenas por estar sentado na cama onde os dois supostamente iriam fazer sexo aquela noite. Levantei a camiseta listrada, mas o hematoma das minhas costelas não estava lá, mas não importava agora. O que mais queria agora era nunca ter saído de casa em um plano fajuto criado por um paranóico.
Peguei minhas coisas e saí pela porta da sala:
- Vocês se merecem, sejam muito felizes! - berrei.

Ninguém iria abrir o portão para mim, estavam muito ocupados, verificando arranhões no corpo do outro, "brincando de médico", eu imaginei. Não precisava, eu sabia muito bem como pular portões. Cruzei o corredor e quase caí por tropeçar em um saco se cimento que estava jogado. Eu o chutei, comecei a me desmanchar em lágrimas na mesma hora. Mas agora não era hora. Me dirigi até o portão, escalei aquelas grades alaranjadas de ferro enferrujado. Passei para o outro lado. Quando estava prestes a dar um pulo de costas, meu pé direito, com o qual chutara o saco, ficou dormente. Pensei em tudo, em toda a minha vida. Passou como um filme. Claro, com vários cortes, porque não havia tempo para um Director's Cut. E simples assim. Deslizei a cambalhotas ladeira abaixo.

A única coisa que consigo me lembrar, era dos respingos do meu sangue que deveriam ter saído por algum orifício do meu rosto mancharem a calçada, e de uma pequena forma, menor que a palma da minha mão, sair desesperada para a direção de várias outras formas sibilantes e agitadas, guinchando algo impossível de compreender. Mas quando foquei minha visão, vi apenas um canteiro de flores e sem muitas cerimonias, minha visão ficou escura.

sábado, 17 de outubro de 2009

Capítulo 1 - Pipoca e manteiga.

Era noite, um ar bem húmido como eu consigo lembrar. As luzes da cidade deixava o céu nublado de aspecto marrom, impossível de ver a linda luz azul pulsando das estrelas lá em cima. Acabara de garoar, o asfalto e todas as construções de concreto, rachadas e danificadas, das antigas casas e prédios estavam molhadas, junto com a grama mal aparada dos canteiros ao redor da rodovia que acabava em um curto viaduto que possibilitava o grande transito de São Bernardo do Campo cruzar a Paulicéia e entrar no Rudge Ramos. Passando por baixo do viaduto, duas pessoas segurando sacolas do hipermercado que beira a rodovia, conversavam seriamente. Um rapaz de cabelos curtos negros e encaracolados, era o mais alto - me lembro bem de quando medí nossas alturas, apenas uma desculpa de chegar perto de seus olhos negros e muito bem desenhados - e o menor, eu, de cabelo bagunçado, volumoso, segurando as sacolas das compras depois de tanto insistir que deveria fazer todo o trabalho porque Otávio havia pago tudo.
Em baixo do viaduto era frio e escuro, cheirava mal e eu não parava de pisar em poças d'água. Fiquei vermelho depois de ensopar minhas meias.
- Não tem problema, na casa do Fábio você tira para assistir o filme. - disse Otávio, com um sorriso simpático, enquanto estávamos atravessando a avenida e começando a subir a colina na direção do nosso destino.
Retribuí o sorriso e continuei em passos longos, entramos em uma rua íngreme e marchamos com esforço para o portão, - já estávamos cansados da caminhada - velho e enferrujado. Ele abriu com as chaves. Neste momento, minha barriga doeu como se tivesse almoçado ovos fritos com repolho. Era ciúmes: Ele tinha as chaves da casa "dele"! Claro, ele morou lá, mas...
Passamos por um corredor cheio de tralhas e materiais de construção e chegamos a uma porta acabada.

Ele abriu e eu entrei, liguei as luzes.
Uma casa em reforma, com paredes verdes, poucos móveis na sala, mas vários CDs de música e um computador ao canto de uma parede decorada com tijolos. Do lado oposto, um corredor no qual dava para a cozinha. Me dirigi para lá e coloquei as sacolas de compras, no qual tirei uma garrafa de Coca-cola e um saco de milho.
- Deixa que eu faço. - disse ele.
- Ah, quer ajuda?
- Sim, venha cá, jogue esta manteiga aí dentro.
- Está bem.
Quando a pipoca estava pronta, um cheiro de manteiga com alho e salsa inundou toda a casa.
- Poxa, vejo que você cozinha muito bem. - Falei sem jeito.
- Fazer pipoca não significa cozinhar bem. E você me ajudou... Quer Coca-cola?
- Vamos levar para o quarto, assim não vamos precisar voltar aqui no meio do filme.
- Deixa que eu levo.
- Eu ajudo...
- Não não precisa - disse ele querendo ser útil - eu levo tudo... Vá colocando o DVD.
Atravessei o corredor, a sala, e entrei no quarto. Paredes brancas com alguns quadros de um modelo louro e alto, sua pele era lisa, sem nenhuma espinha ou rugas, me perguntei se foi usado Photoshop. De um lado, uma estante com vários equipamentos de som e um Televisor. Do outro, uma cama com um cobertor xadrez.
Me apressei, coloquei o DVD, puxei um banco para a garrafa de Coca-cola e os dois copos. Fechei a janela e ele ligou os aparelhos de som.
Deitamos na cama.
Ele com os pés virados para o travesseiro e eu com os pés do lado oposto, encolhido. Não estávamos encostados um no outro, e a vergonha me fez ficar de um mau jeito na cama apenas para dar todo o conforto para Otávio.

Passamos quase metade do filme calados, comendo pipoca. Meu copo havia se esvaziado e logo que o deixei em cima do banco, Otávio logo se inclinou e pegou a Coca:
- Quer mais?
Eu corei como se minhas bochechas tivessem sido pintadas com tinta guache cor magenta, com duas mãos ainda por cima.
- Não, tudo bem, eu pego. - Disse, me apressando para chegar ao copo.
Mas nossas mãos se tocaram.
Eu fiquei completamente vermelho.
Ele também.
Me ajudou a colocar o refrigerante em meu copo e logo voltamos para o filme, com a tigela de pipoca em nosso meio.
Parecia um filme romântico, pois todas as vezes que ia pegar uma pipoca a mão dele estava lá, de encontro com a minha. Acho que na verdade, eu sempre encostava minha mao na dele, porque eu "queria" sentir sua pele, engordurada da pipoca e com sal, mas macia, perfeita. E sua mão estava lá, parada, apoiada sobre as pipocas amareladas da manteiga.
Eu tinha que fazer aquilo, eu não prestava mais atenção no filme, mas sim na mão do Otávio, aquela mão que já segurou na minha a uma semana atrás, aquela em que eu senti o calor e o conforto. Aquelas que já haviam me envolvido em um abraço.
E eu fiz!
Segurei sua mão. Ele, com aquele olhar penetrante, me olhou, meio sem jeito, mas retribuiu, acariciando a minha. Mas outra veio de encontro. De encontro ao me rosto, que se aproximava cada vez mais e mais de Otávio. Ele fechou os olhos.
Otávio me beijou.
Quando ele fez isso, comecei a tremer. Minhas pernas tremiam incontrolávelmente, meu braço tremia indiscutivelmente. Foi quando minha perna direita começou a doer, pelo mau jeito. E eu tentei me mecher, quando eu estava passando a perna para o outro lado. Me puxou e se fez deitar paralelamente a mim.
Estávamos lá, deitados e nos beijando, quando minha cabeça bateu na tijela de pipoca e vi vários pontos amarelados voarem em camera lenta, pipocas aviadoras fugindo de uma grande explosão, se espalhando por todos os lados.
- Droga! Deixa que eu limpo! - disse Otávio, nervoso.
- Ah... Eu ajudo!
- Raios! Por onde andava a minha cabeça? Eu não posso fazer isso... Isso não foi traição né? Um beijinho bobo não foi traição né... Nossa, voou pipoca para todos os lados! Leandro, nosso objetivo aqui é jogá-lo contra a parede! Me desculpa, eu sou um idiota!
Eu estava lá, com cara de tacho, sem palavras.